Uma nova técnica não surge repentinamente. É necessário estudar, pesquisar e, principalmente, manifestar uma inquietude científica para mudar a nossa insatisfação quanto ao tradicional. Às vezes, aquilo que parece fácil e lógico somente torna-se óbvio depois que alguém nos mostra como se faz.

Associar seguramente Lipoaspiração (1980) e Abdominoplastia Tradicional (1966) foi uma tarefa que envolveu estudo, ética, habilidade e principalmente audácia, pois nestes vinte anos alguns cirurgiões já haviam tentado, mas não com o mesmo êxito. O estudo exaustivo da anatomia do abdômen, bem como uma revisão minuciosa de trabalhos anteriormente publicados envolvendo a lipoaspiração e a plástica abdominal, foram as bases da pesquisa. A análise crítica de cada caso operado ao longo do tempo me levou a entender e sedimentar cada conceito.

Finalizei a Lipoabdominoplastia com a inclusão da plicatura muscular. Também aprimorei esses novos conceitos e filosofia de fazer uma abordagem mais conservadora estendendo as indicações para todos os pacientes que necessitam de tratamento da região abdominal, desde os casos mais simples até os mais complexos. Foi assim que surgiu a Classificação para as indicações de Lipoabdominoplastia publicada na Aesthetic Surgery Journal, revista oficial da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Estética. Consegui melhores resultados, rápida recuperação e redução drástica de complicações. O entendimento da anatomia me levou a mudar e minha principal filosofia é preservar a anatomia dos vasos sanguíneos, linfáticos e nervos.

Os capítulos seguintes apresentam a narrativa de uma seqüência científica de casos até chegar à finalização da Lipoabdominoplastia que tem como base três conceitos fundamentais:

  1. Lipoaspiração;
  2. Preservação da Fascia de Scarpa;
  3. Descolamento seletivo.

INÍCIO 2000 – PRIMEIRO CASO

Meu primeiro caso de lipoabdominoplastia sem descolamento, utilizando somente cânula de lipo foi realizado em 2000 e está demonstrado na ilustração. Observei um bom resultado e notei a aparência mais magra do contorno abdominal, além da vantagem de uma recuperação rápida. Em contrapartida, observei uma cicatriz um pouco alta, justificada pela hipertrofia e flacidez do Monte de Vênus. Nesta primeira paciente, não realizei a plicatura da diástase dos músculos retoabdominais porque havia um dogma até então de que não se poderia utilizar lipoaspiração juntamente com descolamento e abdominoplastia clássica. Por esse motivo, percebi que a falta de plicatura deixava a diástase mais evidente, pois a gordura estava menos espessa. Isso me fez questionar a eficácia da técnica e, apesar de suas inúmeras vantagens, não tratar os músculos do abdômen inviabilizaria a técnica.

O segundo caso de lipoabdominoplastia, também é avaliado como um bom resultado. Porém, ainda não me sentia satisfeito com o não-tratamento da plicatura muscular, uma vez que, mesmo com todas essas vantagens (emagrecimento do retalho abdominal pela lipoaspiração, redução do trauma, recuperação mais rápida, etc.), a falta da plicatura muscular era uma evidente limitação da técnica. Mesmo assim, alguns colegas queriam publicar a técnica sem plicatura e buscavam na literatura raros trabalhos que justificavam a não-realização deste procedimento.

PLICATURA.

Minha inquietude, no entanto, fazia-me acreditar em uma corrente contrária. E me levava a buscar trabalhos que defendem a plicatura muscular como ponto fundamental em qualquer tratamento da região abdominal, bem como a associação destes dois procedimentos (lipoaspiração com plicatura). Estudando e entendendo a anatomia da vascularização abdominal, idealizei o descolamento do plano aponeurótico somente na região mediana da diástase muscular, porque, segundo a anatomia descrita, nesta região não existe a presença de veias, artérias perfurantes nem vasos linfáticos dos troncos axilar e inguinal. Desta maneira, estava preservando a viabilidade do retalho por cortar os vasos perfurantes, estabelecendo segurança para o procedimento. Realizei sucessivamente o primeiro e o segundo casos de lipoabdominoplastia com descolamento seletivo para plicatura muscular com total segurança e não observei nenhum tipo de complicação como hematoma, seroma e necrose. A plicatura deste caso ilustra a nossa publicação no Aesthetic Surgery Journal em 2001.

Posteriormente, alguns residentes comprovaram esta minha teoria em estudo laboratorial em cadáveres.

FINALIZAÇÃO DA TÉCNICA.

Nos casos seguintes, tive uma dificuldade maior em realizar a plicatura muscular inferior porque, quando preservava a Fascia de Scarpa, a gordura profunda era mais expressa. Então, efetuei a ressecção em bloco todo o tecido do abdômen inferior, facilitando a plicatura. Porém, nesses dois casos, houve ocorrência de seroma e um desnível no abdômen inferior.

Por que essas duas complicações ocorreram? Não foi difícil chegar a esta resposta. Quando a ressecção em bloco foi efetuada, o plano aponeurótico de dissecção voltava a ser utilizado, lesando e traumatizando os vasos linfáticos do abdômen inferior que drenam para o tronco inguinal. Precisava encontrar uma maneira de preservar a Fascia de Scarpa e a gordura profunda no abdômen inferior para fazer a plicatura e evitar seroma. Idealizei uma lipectomia parcial na região mediana da diástase para a plicatura, unindo com o descolamento seletivo da região superior e possibilitando tratar toda a diástase, do apêndice xifóide até a sínfise púbica.

Assim, a técnica estava completa, sistematizada e fundamentada nos 3 conceitos mencionados acima que utilizamos até hoje.

NOME DA TÉCNICA.

Na época havia uma técnica semelhante que se chamava “Abdominoplastia sem Descolamento”. Foi sugerido o nome “Abdominoplastia com descolamento restritivo”. Não gostei deste nome, pois não traduzia a realidade da técnica. Já tinha um nome idealizado: Lipoabdominoplastia – Por quê? Porque a base da técnica era a lipoaspiração, que fora sistematizada e poderia ser utilizada com alguns princípios da abdominoplastia clássica. Além de ser o nome bonito, objetivo e de fácil compreensão. Então, em acordo, foi publicada como Lipoabdominoplastia com Descolamento Seletivo.

EVOLUÇÃO E EXTENSÃO DA TÉCNICA.

Com essa infinidade de vantagens, tanto nos resultados quanto na redução do índice de complicações, passei a utilizar e indicar esses conceitos, adaptando-os para todos os casos que necessitavam de tratamento da região abdominal. Inclusive as ressecções parciais de pele, denominadas lipominiabdominoplastias. Porque nas técnicas denominadas miniabdominoplastia, publicadas na década de 80, havia um índice alto de complicações como seroma e necrose. Mas por que essas complicações ocorriam mesmo nas ressecções menores? Porque nas miniabdominoplastias (década de 80) era realizada uma lipoaspiração no primeiro tempo cirúrgico e, a seguir, um descolamento no plano aponeurótico – ocasionando um duplo trauma, lesando os vasos perfurantes e o sistema linfático. Principalmente o trauma do sistema linfático inguinal (abdômen inferior) pela lipo, seguido pelo bisturi no descolamento. Outro fator que contribuía para estas complicações nesta época era o calibre das cânulas (5, 6, 7, 8, 9 mm).

Adaptei cânulas mais finas e com furos menores para indicar a lipoabdominoplastia para abdomens magros, já que o conceito de descolar com cânula de lipoaspiração é melhor do que o uso do bisturi.

Surgia, então, a indicação para abdomens magros.

Para abdomens atípicos com cicatrizes e ressecções fora do habitual, também utilizei descolamento com cânulas, dissecção na linha média somente na região da diástase e, sempre que possível, preservando a Fascia de Scarpa e a gordura profunda no abdômen inferior.

Nesta trajetória, precisei operar uma paciente com sobrepeso e um abdômen em avental; portadora de hipertensão arterial, diabetes e hipotireoidismo. A sua indicação era de uma abdominoplastia que chamamos de higiênica, com a finalidade de proporcionar alívio e conforto, já que a paciente estava com sobrepeso. Surgiu uma questão: que técnica iria utilizar?

  1. Opção 1 – Abdominoplastia tradicional, com todos os riscos e complicações já conhecidos desta técnica, associada às doenças crônicas de base desta paciente?
  2. Opção 2 – Lipoabdominoplastia, com as inúmeras vantagens que estávamos observando diariamente?

Não tive dúvidas em indicar a segunda opção, pois, na minha mente, esses conceitos estavam claros, principalmente em relação à segurança. Neste caso, necessitava adaptar cânulas um pouco mais grossas para descolar o expresso tecido gorduroso deste abdômen. A cirurgia foi realizada sem plicatura neste caso, pois não estava indicada, sendo executada em tempo inferior à uma hora e meia. O pós-operatório, como já esperava, transcorreu sem nenhum tipo de complicação (necrose, seroma, hematoma).

Este caso me fez refletir sobre toda essa mudança radical de abordagens, de conceitos, técnicas e métodos que envolviam a lipoabdominoplastia; concretizando cada vez mais os meus ideais. Era impossível voltar a utilizar o método clássico, mas toda essa conquista e avanço não eram compreendidos por muitos cirurgiões.

DEFINIÇÃO.

A lipoabdominoplastia é uma técnica desenvolvida no final dos anos 90 e início de 2000 que sistematiza o uso da lipoaspiração com abdominoplastia tradicional e evoluiu baseada nos conceitos: lipoaspiração abdominal e preservação da Fascia de Scarpa. Incluí o descolamento seletivo na região da diástase dos músculos retoabdominais, estabelecendo e sistematizando esses três conceitos. Desta maneira, a técnica consegue preservar melhor a anatomia da região abdominal, traumatizando muito menos os vasos sangüíneos (artérias e veias), sistema linfático e nervos. Fundamentada nestes conceitos, a técnica traz resultados excelentes e reduz significativamente o índice de complicações.

Passei a utilizar estes conceitos rotineiramente para todas as indicações de abdominoplastia, como abdomens pós cirurgia bariátrica (ex-obeso), abdomens magros, atípicos, com mini-ressecções e etc. Esta compilação de conceitos, filosofia, métodos e técnicas foi publicada pela Aesthetic Surgery Journal, a revista oficial da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica.